terça-feira, 9 de março de 2010

O ÚLTIMO SOBREVIVENTE - Capítulo 04

SUPERFICIALMENTE PROFUNDO

Despertou com a sensação de que estava deitado por séculos. No entanto o cheiro de cerveja e cigarro que tomava conta do minúsculo habitat o fazia perceber que ainda estava na mesma madrugada insana.
Procurou a caixinha de incenso e acendeu dois, um em cada canto da sala. Aquilo lhe fez lembrar de coisas diversas, aparentemente desconexas, mas que na sua cabeça se relacionavam e apareciam ao mesmo tempo. Hare Krishnas, Woodstock, Festival de Arembepe, a Era de Aquário, as viagens espaciais, Hair, Forest Gump, a semelhança de Tom Hanks com Juliet Lewis, as lições de vida de ‘The Other Sister’, a verdade contida no título brasileiro ‘Simples Como Amar’ e como as pessoas tinham por hábito complicar o amor.
Resolveu ouvir ‘Metade’, de Oswaldo Montenegro. Haviam dois trechos que realmente faziam todo sentido para ele. O primeiro era “Que a música que ouço ao longe / Seja linda ainda que tristeza / Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada / Mesmo que distante / Porque metade de mim é partida / Mas a outra metade é saudade”. O segundo era a parte final. E para ele parecia impossível que não fosse assim com todo mundo: “E que a minha loucura seja perdoada / Porque metade de mim é amor / E a outra metade também”.
Repetiu a faixa e foi ver como estava o estoque de cervejas. Aproveitou para olhar o corte proveniente da pancada na gaveta. Superficial. Mais uma coisa superficial na sua vida. Era sempre assim. Sempre acreditava que algo era profundo e acabava por descobrir que eram superficiais. Mas como entender coisas superficiais deixarem cicatrizes tão profundas?
Ao voltar para a sala, acendeu um cigarro, trocou a faixa e sentou-se no chão para ouvir:

Eu hoje acordei tão só
Mais só do que eu merecia
Olhei pro meu espelho e ah...
Gritei o que eu mais queria

Na fresta da minha janela
Raiou, vazou a luz do dia
Entrou sem me pedir licença
Querendo me servir de guia

Na fresta da minha janela
Raiou, vazou a luz do dia
Entrou sem me pedir licença
Querendo me servir de guia

Eu que já sabia tudo
Das rotas da astrologia
Dancei e a cabeça tonta
O meu reinado não previa

Olhei pro meu espelho e ah...
Meu grito não me convencia
Princesa eu sei que sou pra sempre
Mas sempre não é todo dia

Olhei pro meu espelho e ah...
Meu grito não me convencia
Princesa eu sei que sou pra sempre
Mas sempre não é todo dia

Botei o meu nariz a postos
Pro faro e pro que vicia
Senti teu cheiro na semente
Que a manhã me oferecia

Eu hoje acordei tão só
Mais só do que eu merecia
Eu acho que será pra sempre
Mas sempre não é todo dia...

E onde estava a manhã que não aparecia? Até quando iria durar aquela madrugada? A que horas tinha começado a beber? Com que idade começou a beber? Quando aquela angústia festiva iria acabar? Até quando conseguiria sobreviver a si mesmo?
As questões invadiram a sua cabeça e a música já não servia nem como pano de fundo. Não era esta a proposta. O show tinha que continuar! Mais uma cerveja e mudança de repertório. Blitz! Assim era melhor para dançar. Dançar pra não dançar. Rita Lee! Iria ouvir titia Lee! Ouvir e dançar. Sozinho, com seus fantasmas e até mesmo com ela. Já que ela teimava em entrar na festa sem ser convidada, não custava dançar com ela também!
O LP ‘Fruto Proibido’ ainda era um dos seus preferidos. Rita Lee & Tutti Frutti. Por mais que ela dissesse que Roberto Carvalho melhorou harmonicamente a sua musica, não havia como negar que a ‘pegada’ havia perdido lugar. O rock havia virado balada nos álbuns pós ‘Tutti Frutti’. Mas agora estava ouvindo e dançando ‘Pirataria”. E a letra tinha muito do nada em que ele estava no momento.

Quem falou que não pode ser?
Não, não, não
Eu não sei por quê
Eu posso tudo, tudo

Me disseram pra não dizer
Não, não, não
Eu não sei o quê
É absurdo
Eu não sou mudo

Quem falou que não pediu pra nascer
Não, não, não
Eu sinto muito,
Vai ficar pra outra vez

Não é possível ser pirata em paz
Que o transatlântico vem logo atrás
Eu sei que ele está perseguindo
O meu tesouro escondido

Enquanto isso eu continuo no mar
A ver navios pra poder navegar
A nau dos desesperados
Navio fantasma e seus piratas pirados

Não!
Oh, meu bem,
Vai ficar pra outra vez...

Era assim! A nau dos desesperados! Navio fantasma e seus piratas pirados... Pensou, rindo, então: Como diria Fanta Maria, de ‘A Bofetada’, isso tudo “é a minha cara”! E, por falar em Fanta, uma cervejinha cairia bem...

O ÚLTIMO SOBREVIVENTE - Capítulo 03

ENTRE A ESTUPIDEZ E A AUSÊNCIA

Assim como na canção, as cervejas e os cigarros também se multiplicaram. Já não importava que disco colocar agora. Com certeza qualquer uma teria uma música inapropriada para o momento. O momento era inapropriado. Ele era inapropriado. Ela tinha sido inapropriada. Ele tinha sido desapropriado dos seus sonhos. Ela tinha se apropriado deles e jogado fora!
Agora ele estava sentado no chão com uma caixa de isopor cheia de cervejas à sua frente. Estava cansado de ir até a cozinha com tanta constância. Na verdade, nem estava prestando mais atenção ao que estava tocando. Apenas o clique do braço do toca discos ao final do disco o despertava daquele vazio que o tomara. Sentia que estava perdendo o controle da situação, que já havia bebido demais... E ainda mais bebia!
Agora lembranças, mágoas, saudades e sonhos desfeitos sem se misturavam num devaneio amorfo. Já não havia lógica nos pensamentos. Já havia acendido um cigarro pelo filtro e isso não era um bom sinal. Chorava. E isso também não era um bom sinal. Abandonara o ritual (ou havia sido abandonado por ele). Outro mau sinal.
Resolveu buscar um pouco de lucidez em meio àquele momento caótico. Afinal, se era um caos, havia a possibilidade de um recomeço. Levantou, trôpego, e foi trocar o disco. Pegou um do Rei Roberto, de 1969. Ouviu todo o ‘lado A’ e as duas primeiras faixas sem tomar um só gole, como se aquela abstinência temporária fosse fazê-lo melhorar daquele estado de embriaguez. Mas o disco não acabava ali!
A verdade contida na terceira faixa do ‘lado B’ caiu sobre ele como uma bomba de nêutrons. Sim! Ela havia sido estúpida! Não somente no sentido contido na canção. Além da asneira que havia cometido, tinha sido grosseira. Estúpida no pensar, no agir e no falar. Ela não havia conseguido mensurar o sentimento ofertado. Não conseguiu ver a dimensão do que lhe era ofertado. Retornou a agulha para o início da faixa e começou a cantar junto com o Rei:

“Meu bem, meu bem
Você tem que acreditar em mim
Ninguém pode destruir assim
Um grande amor.
Não dê ouvidos à maldade alheia e creia
Sua estupidez não lhe deixa ver que eu te amo.
Meu bem, meu bem
Use a inteligência uma vez só
Quantos idiotas vivem sós
Sem ter amor
E você vai ficar também sozinha
Eu sei porque
Sua estupidez não lhe deixa ver
Que eu te amo.
Quantas vezes eu tentei falar
Que no mundo não há mais lugar
Para quem toma decisões na vida sem pensar.
Conte ao menos até três
Se precisar conte outra vez
Mas pense outra vez
Meu bem, meu bem, meu bem
Eu te amo.
Meu bem, meu bem
Sua incompreensão já é demais
Nunca vi alguém tão incapaz de compreender
Que o meu amor é bem maior que tudo que existe
Mas sua estupidez não lhe deixa ver
Que eu te amo!”

Não sabia se estava pior, ou melhor. Sabia que não deveria estar pensando nela com carinho. Mas estava. Voltou-se para a caixa de isopor e pegou outra cerveja. Foi empurrando a caixa com o pé até a cozinha e reabasteceu-a. A festa tinha que continuar... E ela deveria ir embora. Não havia sido convidada. Ele, sim, havia sido convidado a se retirar da vida dela...
Queria poder ignorar aquela dor. Queria poder esquecer que ela existia. Mas como esquecer se ele estava impregnado dela no corpo e na alma?
Mas havia a festa! E agora sem ritual. Empilhou os LPs num canto da estante da sala e mudou o seletor para CD. Seus CDs também estavam organizados em ordem alfabética, o que permitia que, apesar da visão completamente turva e de estar vendo tudo em dobro, encontrasse o que queria: ‘Nelson Gonçalves - Ainda é Cedo’. O eterno boêmio interpretando canções dos anos 80. Nos anos 80 ele tinha tido muitos momentos felizes!
Ouviu ‘Como uma onda’, ‘Faz parte do meu show’ e quando chegou em ‘De mais ninguém’ recebeu outra bomba sobre a cabeça! Ele estava certo no que pensara antes: qualquer música seria inapropriada para o momento!

“Se ela me deixou, a dor
É minha só, não é de mais ninguém
Aos outros eu devolvo a dó
Eu tenho a minha dor

Se ela preferiu ficar sozinha
Ou já tem um outro bem.
Se ela me deixou a dor é minha
A dor é de quem tem.

É meu troféu, é o que restou
É o que me aquece sem me dar calor
Se eu não tenho o meu amor
Eu tenho a minha dor.

A sala, o quarto, a casa está vazia
A cozinha, o corredor
Se nos meus braços ela não se aninha
A dor é minha.

É o meu lençol, é o cobertor
É o que me aquece sem me dar calor
Se eu não tenho o meu amor
Eu tenho a minha dor...”

E antes que ‘Você é linda’ começasse, capitulou ao álcool e caiu de joelhos. Passou alguns segundos assim. Depois pendeu para a esquerda, batendo a cabeça de raspão na quina da gaveta da estante antes de ficar deitado no chão. Rindo do ridículo da situação, passou a mão no local da pancada, observou a pequena quantidade de sangue que saia e desmaiou despreocupado.

O ÚLTIMO SOBREVIVENTE - Capítulo 02

SUBTRAÇÃO E MULTIPLICAÇÃO

Ali, naquele chão, por muitas vezes um colchonete serviu para que eles se amassem sem medos ou preconceitos. Não havia limite ou regra entre eles quando estavam entregues, nus, aconchegados e desejosos de dar e receber prazer. Ficou, por instantes, parado, fitando o espaço vazio onde o colchãozinho ficava. Já não mais ria da queda que tomara ao tropeçar em si mesmo. Lembrou que um tropeço muito maior o derrubara muito mais fundo.
Levantou-se e pegou a cerveja. Procurou alguma coisa para ‘beliscar’ e decidiu-se pelo queijo. Cortou-o em fatias largas e estas em cubinhos. Borrifou o molho inglês e colocou os palitos. Realmente gostava daquilo! E, ato contínuo, voltou os pensamentos para o extinto Mater Café Teatro, para onde sempre ia quando estava a fim de beber sozinho. Era a fase da vodka! O garçom já sabia: vodka com gelo, sem limão e uma porção de queijo com molho inglês.
A fase vodka talvez tenha sido a mais longa. Já tinha havido a fase das batidas do Diolino, a do gim com água tônica, a da ‘cuba libre’... Começou a rememorar os bares que gostava de freqüentar e chegou a uma triste verdade: nenhum deles existia mais. Era como se parte do seu passado tivesse sido deletada. E como seria bom se isso fosse realmente possível! Como seria bom poder deletar lembranças, recordações dolorosas...
Arrastou a mesinha para perto do sofá, colocou o prato com queijo, a cerveja e sentou-se para ouvir o restante do disco enquanto pensava qual seria o próximo a ser colocado. Decidiu-se por Milton Carlos. Gostava da voz, das letras, das melodias... Pena que tão pouca gente conhecesse o trabalho dele. Mas, sempre que possível, apresentava-o aos amigos, que, via de regra, se surpreendiam com a qualidade do trabalho do rapaz. Elas por Elas, parceria dele com a irmã, Isolda, era uma boa opção para o momento...

“Hoje senti que é bem melhor
Não haver nada entre nós
Daqui pra frente

Pois você nunca percebeu
Tudo que eu quis lhe dar de meu
Sinceramente

Você tentou dizer da paz
Com tantas frases tão banais
E eu te faria feliz

Enquanto eu me enganei
Dizendo ao mundo que te amei
Você nem quis ouvir.

Hoje senti que é bem melhor
Darmos as costas pro pior
Que está bem perto

Você vai ter que compreender
É assim mesmo que vai ser
Errado ou certo

Assim como você
Vai abrir mão do que passou
Tudo o que houve vai esquecer
Nem vai lembrar sequer quem sou

Elas por elas decidi
Vai ser preciso te esquecer
Para viver em paz”.

O chiado da agulha sobre o LP dava uma sensação de melancolia maior ainda, mas era preciso passar por aquela noite, sofrer o que angustiava e doía. Retirar os resíduos da ferida, para tentar curá-la. Era quase uma seção de autotortura, mas era, ao mesmo tempo, uma catarse necessária para voltar ao mundo disposto, ao menos, a aturar a espécie humana. Ou de conseguir ser aturado pelas pessoas!
“Eu quero me sentir bem mais ainda / Você e o amanhecer de um novo dia / Se eu pudesse te nascer de novo / Eu juro que te morreria minha...” dizia um trecho de Eu Juro Que Te Morreria Minha, também dos dois irmãos. Ele pensou que seria assim... Mas agora era ele quem precisava renascer. Aquele ritual podia não ser uma forma muito ortodoxa de fazer isso, mas nada na vida dele o era.
Quando tentava fazer as coisas do ‘modo normal’, do jeito que todo mundo fazia, inevitavelmente se estrepava! Não parecia talhado para ser recompensado pelas atitudes ditas coerentes. Tampouco era compreendido quando revelava a sua forma peculiar de pensar e agir. Vivia preso em uma fronteira entre o como sabia e o como não sabia ser. Isso se considerando que aquilo que ele chamava de saber viver pudesse ser visto como tal.
Tirou aquele disco e foi buscar mais queijo e outra cerveja. Acendeu um cigarro e ficou brincando de passar a fumaça pelo furo do LP, em direção à réstia de luar. Parecia um fantasma esquálido a bailar sem música no meio da sala. Iria colocar uma música para ele dançar melhor...
Foi buscar um disco que não estava na sua seleção inicial. Como os organizava em ordem alfabética, ficava fácil achá-los, mesmo estando, àquela altura do seu ‘ritual’, com a visão um tanto turva. Lá estava ele! ‘Trilha Sonora Internacional da Novela Estúpido Cupido - 1976'. Aproveitou e pegou também um disco infantil, colorido e transparente. Agora poderia ver a fumaça subir com um tom azulado... Escolheu a faixa 2 do ‘lado A’: Multiplication, com Bobby Darin.
No entanto o efeito daquela canção em conjunto com aquele disquinho colorido foi completamente diferente do pretendido. As lembranças das histórias da irmã, ainda pequena, dançando twist sobre os disquinhos, e do primo que fazia uma coreografia toda particular, levantando lentamente as pernas, num ritmo completamente diferente o fizeram cair na gargalhada. Uma gargalhada plena, sincera. Uma catarse momentânea que lhe fez muito bem.
Após efêmero, mas eficiente, surto de alegria, música foi repetida inúmeras vezes enquanto a fumaça subia em direção à telha de vidro, formando espectros azulados. Afinal, como ela mesma dizia: “Multiplicação, esse é o nome do jogo...”
Era preciso brindar a isso! E lá foi ele...

O ÚLTIMO SOBREVIVENTE - Capítulo 01

UMA NOITE DE AUTODESENCONTRO

De que valia ter dado todas as demonstrações de carinho e confiança? Naquele instante ele constatava que estava novamente sozinho. E mais uma vez, por ter sido condenado por algo que não fez. Abriu a geladeira e pegou outra garrafa de cerveja. Voltou para a sala e conferiu o estoque de cigarros. Era o bastante para virar a madrugada. A noite prometia! Ele só não sabia bem o que!
Já havia escolhido diversos LPs para ouvir as músicas que trariam recordações variadas e sentimentos diversificados. Nestes momentos os CDs não tinham utilidade. Era um momento ritual! Para ele, CDs eram como os cigarros que, por muitas vezes, ele até esquecia acesos no cinzeiro, queimando sem uso. Serviam para fundo musical, não para trilha sonora de um ritual. LPs sim! Estes eram como os cachimbos que outrora possuíra. Cachimbos são cerimoniais! Escolhe-se o cachimbo, depois o fumo, em seguida colocar e prensar na medida exata... Acender, puxar e atirar baforadas de fumaça ao ar...
Não tinha mais cachimbos. Há muito havia se afastado de determinados ritos. Inclusive do que estava sendo sacerdote mor nesta noite iniciada! Mas necessitava concentrar-se em alguma coisa que lhe permitisse, ao mesmo tempo, não ter nenhuma necessidade de estar concentrado em algo específico. E concentração era uma coisa que, muito em breve, seria impossível se exigir dele, levando em consideração o número de garrafas vazias encostadas na parede da sala. Não por uma questão de organização, mas para prevenir acidentes futuros. Com certeza tropeçaria em uma delas caso ficassem pelo caminho.
Era um desastrado nato! Brincava sempre, dizendo que até podia não ganhar na ‘Sena’, mas que sempre acertava na quina. As cicatrizes pelos braços e pernas testemunhavam suas palavras e atestavam os encontrões com os móveis da casa. Mas não seria um acidente a prejudicar a sua noite!
Pegou o primeiro disco, ‘Sua Paz Mundial 860 - Sonzão Jovem - 1973 - Somlivre’. Primeira faixa do ‘lado A’: Skyline Pigeon, com Elton John.
“Turn me loose from your hands / Let me fly to distant lands / Over green fields, trees and mountains / Flowers and forest fountains / Home along the lanes of the skyway…”
E quem disse que ele queria estar solto? Quem? Porque ela abriu as mãos e o deixou partir? De que vale ser livre sem ter ânimo para voar? Voar para onde? Para que?
Mas estava mesmo livre? Ou estava definitivamente preso a ela, mesmo sendo condenado por algo que jamais fizera?
“Fly away skyline pigeon fly / Towards the dreams / You've left so very far behind…”
Agora é que os sonhos estavam ficando para trás... mais uma cerveja se fazia necessário... mas antes, trocaria o disco... ‘More Creedence Gold - Creedence Clearwater Revival’…
“Hey, tonight, / Gonna be tonight, / Don't you know I’m flyin' / Tonight, tonight…” e lá vinha, novamente, essa história de voar…
Cerveja! Já! E ele foi...
‘A Collection Of Beatles - Oldies (But Goldies!)’. Agora sim! Podia sentar e ouvir todo o ‘lado A’ sem ter que se preocupar em mudar de faixa. Às vezes aquele ritual ficava chato. Mas era necessário! Concentrar-se desconcentradamente! Ou algo assim...
“She Loves You Yeah, Yeah, Yeah / She Loves You Yeah, Yeah, Yeah / She Loves You Yeah, Yeah, Yeah, Yeah / You Think You’ve Lost Your Love / Well I Saw Her Yesterday / It’s You She’s Thinking Of / And She Told Me What To Say…”
Acendeu um cigarro e ficou olhando a fumaça subir pela réstia de lua cheia que entrava pela telha de vidro...
“…You Know It’s Up To You / I Think It’s Only Fair / Pride Can Hurt You Too / Apologize To Her…”
Pedir desculpas porra nenhuma! Porque iria se desculpar pelo que não fez? Pensou quase aos berros, enquanto saltava as faixas 2 e 3, pousando nada suavemente na faixa 4. Ela não lhe deu essa chance... E ele gostaria de ter dito ao menos ‘We can work it out’...

“Try to see it my way
Do I have to keep on talking till I can't go on
While you see it your way
Run the risk of knowing
That our love may soon be gone

We can work it out
We can work it out
Think of what you're saying
You can get it wrong
And still you think that it's all right

Think of what I'm saying
We can work it out
And get it straight or say goodnight

We can work it out
We can work it out

Life is very short
And there's no time
For fussing and fighting, my friend

I have always thought
That it's a crime
So I will ask you once again

Try to see it my way
Only time will tell if I am right or I am wrong
While you see it your way
There's a chance that we might fall apart
Before too long

We can work it out...”

Um brinde no vazio, para preencher a ausência doída, para afastar a presença doida, para brindar ao fim... Precisava de mais uma cerveja... E levantou sorrindo ao ver que haviam três cigarros acesos, um em cada cinzeiro. “Os convidados estão chegando”... caiu na gargalhada e no chão da cozinha...

segunda-feira, 8 de março de 2010

PIANO E PRESTO - Capítulo 5 (Final)

BOURBON

Pediu mais uma cerveja, acendeu um cigarro e enxugou a lágrima que teimou em correr...
Agora o sol se punha... Mas do outro lado do mundo, ele estava nascendo... No Japão... A casa do sol nascente... The house of the rising sun... New Orleans… Blues…
Pagou a conta e se dirigiu ao ponto de táxi. Já dentro do carro, apenas disse para o motorista pegar a orla no sentido Barra. Sacou o celular do bolso e discou para o amigo Sérvio. Desta vez alguém atendeu do outro lado e lhe disse que ele estava internado para tratamento intensivo. Desligou. Pensou que, naquele ritmo, logo seria ele a precisar de algo assim.
Já próximo ao Rio Vermelho, resolveu ir para casa. Chegou, tomou banho, vestiu-se e foi olhar a ‘Agenda Cultural’ na Internet. Havia um show de blues no Solar do Unhão. Resolveu de imediato que iria. Blues... New Orleans... E agora o lugar que era deles! Se era para ficar com seus devaneios e sua saudade, que fosse lá. Ali tudo estava impregnado com a presença dela, com a voz dela, com o riso dela, com o cheiro dela...
Não podia dizer que assistiu a apresentação. Ouviu, mas não assistiu. Enquanto os seus ouvidos estavam sentados ali, o resto, de mãos dadas com ela, passeava pelas pedras dos caminhos do Solar, olhava as esculturas no jardim, São Jorge nos azulejos e namorava no píer ...
Ao final, enquanto todos se dirigiam à saída, ele foi sozinho até o velho guindaste e ficou parado, olhando a Baía de Todos os Santos. Lembrou de uma carteira de couro de cabra que o pai havia lhe dado e que comprara ali, de um hippie que cortou o pé ao pular o muro para pegar a certeira, que caiu do outro lado. Seu velho ficara com pena do pobre sujeito e a comprou. Só bem mais tarde entendeu que namorar naquele local era hereditário!
Ficou ali até ser chamado pelo segurança que o avisava que o local iria fechar. Ligou para chamar um táxi e seguiu para o Rio Vermelho. Não sabia mais quais eram os bares da moda, mas tinha certeza de uma coisa: naquele bairro sempre está acontecendo alguma coisa!
Desceu do carro próximo à igreja velha e saiu caminhando até que uma música chamou sua atenção. Nem mesmo olhou o nome do bar. Apenas entrou, sentou e pediu um Bourbon. A banda tocava bem, o vocalista era bom, mas isso era o que menos importava. Algo muito mais importante estava acontecendo. Um recado que vinha diretamente para ele. Somente para ele.
Ali, no Rio Vermelho, sentindo o cheiro do Atlântico, eqüidistante de tantas baianas de acarajé e seus quitutes afro-baianos, e de um legítimo restaurante japonês, estava ele bebendo um legítimo Bourbon e ouvindo, ao vivo, “The house of the rising sun”! Uma improvável New Orleans acontecia em plena noite soteropolitana!
E, se os seus devaneios conseguiam, naquele que pretendia ser um dos piores dias da sua vida, tomar forma naquele final de noite, como não sorrir e voltar a crer que aquela atordoante esperança de um dia, qualquer dia, nem que fosse por um dia ou uma réstia de dia, tê-la novamente em seus braços era muito mais real do que ele imaginara até então.
Mesmo sem saber até quando, e nem mesmo se preocupar com isso, ele, ali, naquele exato instante, estava mais próximo dela do que jamais esteve nos últimos tempos. E era, inexorável e incontrolavelmente, feliz!

PIANO E PRESTO - Capítulo 4

OXUM E SHOGUN

Estava ali, olhando o Atlântico, navegando pela orla soteropolitana a bordo de um ônibus qualquer. Nem ronin, nem samurai. Nem escravo, nem senhor. Nem Japão, Nem New Orleans. Apenas ele e o Atlântico...
E assim seguiu divagando em desconexos micropensamentos aleatórios e sem fim, até que o Atlântico deu uma guinada para a direita e sumiu das suas vistas. Não olhou em redor para identificar onde estava, Foi à deriva, naquela nau urbana, na esperança de que o mundo houvesse voltado a ser uma placa quadrada, onde ele pudesse desabar além horizonte, até perceber, de relance, a Lagoa do Abaeté. Deu sinal e desceu.
Quantas horas passou olhando aquela lagoa e aquelas areias, nem mais sabia. Percebeu que estava ali há muito tempo ao sentir a pele castigada pelo sol que havia voltado nem sabia quando. Procurou o bar mais próximo, aboletou-se em uma das mesas e pediu uma cerveja e um maço de cigarros, e mais uma, e mais outra e outra. Quando percebeu, estava novamente pensando nela. Gostava de pensar nela, muito embora isso lhe trouxesse uma desordem de sentimentos e pensamentos que lhes eram incapazes de organizar. Sempre foi. Ou melhor, passou a ser desde o momento em que ela, precisamente após dois meses de saudade e vontades, lhe disse calmamente que não poderia ser mais sua namorada.
A partir de então tudo passou a ser absolutamente inexato e desnecessário. Não era preciso navegar, nem viver. Mas ele havia prometido algumas coisas a ela e não podia deixar de cumprir. Afinal, ainda nutria aquela atordoante esperança de um dia, qualquer dia, nem que fosse por um dia ou uma réstia de dia, tê-la novamente em seus braços.
No princípio, a dor foi tão profunda que o anestesiou a ponto dele descumprir uma coisa que havia dito a ela: Que se a felicidade dela dependesse da ausência dele na vida dela, ele optaria pela felicidade dela. Pediu desculpas e por ela foi desculpado. Mas não se desculpou. Ele, que havia se afastado das bebidas, se reaproximou apaixonadamente. Também não mais buscou ajuda profissional e desprezou os medicamentos. Entregou-se a uma luta contra si mesmo, desafiando-se diariamente, vencendo e perdendo igualmente, todo o tempo.
Ao mesmo tempo, desenvolveu novas manias e se tornou cada vez mais anti-social. Enfurnava-se em casa, raramente atendia ao telefone e nunca abria a porta para quem nela batia. Sua casa era o seu refúgio, a sua concha, o seu escudo contra o mundo. Agora, justo quando resolve mudar de rumo, tudo dá errado de novo e, pior, a ausência dela se torna tão presente frente àquela lagoa, que ele quase pode novamente tocá-la.
Mas ela não fica ao seu lado. Agora está nadando nas águas escuras, sob o sol escaldante e entre o reflexo da luz que vem das areias brancas e brinca ao seu redor. Ela é Iara, é Oxum, é uma sereia nas águas doces da lagoa. E ele, no que restou dos pensamentos de Japão, era John Blackthorne... Era Anjin San... E o navio não era mais o Gripsholm, era o Erasmus... E ela não mais era uma entidade... Era Mariko, mergulhando despida da amurada do barco... E lembra-se do corpo... E lembra-se dos corpos, dos abraços, dos beijos, do sexo bom... E ele lembra que na história de Blackthorne e Mariko também existe Buntaro... E que, na deles também há um Buntaro... Um samurai!
E, envolto neste turbilhão, começa a cantar para ela:

“A...
Quanto querer
Cabe em meu coração...

A...
Me faz sofrer
Faz que me mata
E se não mata fere...

Vai...
Sem me dizer
Na casa da paixão...

Sai...
Quando bem quer
Traz uma praga
E me afaga a pele...

Crescei, luar
Pra iluminar as trevas
Fundas da paixão...

Eu quis lutar
Contra o poder do amor
Cai nos pés do vencedor
Para ser o serviçal
De um samurai
Mas eu tô tão feliz!
Dizem que o amor
Atrai...”

sexta-feira, 11 de julho de 2008

PIANO E PRESTO - Capítulo 3

TEMPORAIS

Uma tempestade intempestiva incentivava a permanecer na cama, mas não era justo desaproveitar uma rara vez em que conseguia acordar sem despertador e bem disposto. Não iria perder a sua primeira sessão de análise! A chuva até que seria uma boa desculpa para desistir, mas ele já havia desistido de desistir de si mesmo e estava determinado a aceitar ajuda profissional. Assim como um deficiente físico necessita de um fisioterapeuta para auxiliá-lo nos exercícios, ele também precisava de alguém qualificado a acompanhar suas atividades emocionais, que não eram poucas.
Obsessivo, compulsivo, desmedido e ansioso em alguns momentos. Disperso, preguiçoso, excessivamente prudente e paciente em outros. Bomba de fogo, ou bomba de fumaça, era, em resumo, uma bomba relógio em todos eles! Suas atitudes realmente caiam como bombas sobre os outros. Finalmente daria um pouco de paz àqueles poucos que ainda o cercavam. E, assim, obstinado a correr o risco de saber-se além do que imaginava saber-se, levantou da cama e partiu para um demorado banho frio.
Iogurte de ameixa e sanduíche de atum. Cafezinho e cigarro. Escovar os dentes e cigarro. Vestir-se e sair. Voltar e guarda-chuva. Sair novamente. Ponto de ônibus lotado e espera. Não iria desistir. Sabia que precisava daquilo.
Passou a observar as pessoas ao seu redor. O que será que se passa pelas cabeças delas? Haveriam tantas angústias quanto na sua? Para onde estavam indo? Que objetivo tinham na vida? Porque não estavam em outro ponto em vez de superlotar aquele? Porque não iam todos à porra? Porque merda este ônibus demora tanto? Os pensamentos se atropelavam (como sempre). E ele atropelou uns dez para conseguir entrar no ônibus que acabara de chegar.
Passar pela roleta com aquele guarda-chuva imenso e molhado foi uma comédia! Atravessar o corredor lotado, uma novela. Sentir que alguém metia a mão no seu bolso, uma tragédia.
Girou nos calcanhares, ficando olhos nos olhos com o cretino que ainda fazia o movimento de guardar a carteira dele no cós da calça. Sem quase espaço para se movimentar, restou-lhe usar a mão direita para segurar o infeliz pelos ovos e dar uma cabeçada certeira no nariz. Com a mão esquerda resgatou a carteira e cinicamente pediu desculpas ao punguista por ter se desequilibrado. No entanto o cinismo era mera fachada para não gerar tumulto no ônibus lotado. Apertou o botão, pedindo parada e desceu. Só então notou que, na ação de pegar a carteira de volta, abandonou o guarda-chuva lá dentro. Tarde demais! Tarde demais! Tarde demais!
Tarde demais para recuperar o guarda-chuva (e ainda chovia a cântaros!). Tarde demais para chegar a tempo ao seu destino. E tarde demais para não começar a ter raiva daquilo tudo. Tinha feito tudo certinho. Estava indo ao analista! Mais uma vez seus planos se desvirtuavam por fatos alheios à sua vontade. Não chegou a sentir pena de si mesmo, porém entrou em um estágio que, via de regra, nunca acabava bem.
Continuou andando, debaixo daquele toró, como se fosse um belo dia de sol. Seguiu a avenida até chegar na beira mar. Parou na balaustrada que dava para a praia e ficou observando o horizonte, imaginando o ‘Gripsholm’, cheio de japoneses, entrando pela Baía de Todos os Santos. Um navio cheio de japoneses negros, escravos dos samurais que plantavam cana-de-açúcar no Recôncavo baiano. Senhores feudais a governar vidas. Senhores do bem e do mal, com seus exércitos de feitores.
E esses ronins negros, amontoados nas senzalas, fazendo katas lentamente, fingindo ser balé a força da luta dos seus ancestrais, seriam libertados mais tarde, como passarinhos criados em gaiolas e obrigados a voar com as asas atrofiadas e tudo seria como já é. Não queria mudar o mundo. Apenas gostava de brincar com os seus conhecimentos, misturando fatos e épocas, do mesmo modo que misturava filmes e novelas e acabava por confundir a quem acreditava que ele estava falando sério. Ficou tanto tempo nesta viajem pessoal que demorou a notar que a chuva havia passado. Foi a um ponto de ônibus e entrou no primeiro carro que passou, sem ao menos olhar a bandeira para ver o destino. Pouco importava. “O destino é o destino”, concluiu mentalmente.
Pela chuva que havia caído e pelo horário, o transporte estava praticamente vazio. Sentou-se do lado que dava para ver o mar e deixou-se ir...

quarta-feira, 9 de abril de 2008

PIANO E PRESTO - Capítulo 2

GRANDE GUERRA

Acordar nunca fora uma tarefa das mais agradáveis para ele. Tinha plena consciência de que era portador de distúrbios do sono. Quando assistia às matérias de TV a respeito do assunto, identificava em si a maioria dos sintomas diurnos gerados pelo mal dormir. Mas o que mais o prejudicava era o insuportável mau humor que por vezes o dominava como se um ser estranho tivesse invadido o seu corpo e dividisse as decisões mentais com ele. Tentava, mas quase nunca conseguia, não ser grosseiro com as pessoas. Decidiu, então, que quando estivesse assim, pediria desculpas antes mesmo das agressões ocorrerem, como se fosse uma espécie de crédito depositado que o permitisse agredir já estando perdoado por antecipação. Os outros não encaravam a coisa desta forma, mas ele sim!
Levantou-se da cama lenta e preguiçosamente. “Um guerreiro tem que deitar e dormir como quem morre, e acordar, levantando-se como quem já está em batalha”, era a frase que vinha sempre à sua mente nestas horas. Entre não se considerar mais um guerreiro ou ir de encontro aos ensinamentos de muitos anos, preferiu uma terceira opção: era um guerreiro que já acordava em batalha. Na batalha contra a vontade de permanecer deitado. Nem sempre vencia, no entanto, nunca fugia ao embate!
E, ao lembrar dos ensinamentos adaptados, lembrou-se, também, daquela idéia de uma ligação entre Japão e New Orleans! Resolveu partir em busca de algo que lhe mostrasse que não era tão maluco quanto imaginavam, muito embora, provavelmente, não fosse tão normal quanto se considerava. Depois de seis horas consecutivas de pesquisas na Biblioteca Central, finalmente encontrou o que procurava. E, melhor do que supunha, a ligação entre New Orleans e o Japão tinha parte da sua história (e uma parte bastante interessante) passada no continente africano.
Durante a Segunda Grande Guerra os japoneses que viviam nos Estados Unidos, muitos deles residentes em New Orleans, um centro de exportação muito importante para os interesses japoneses, foram detidos e levados a Nova York. De lá, a bordo de um navio sueco de nome Gripsholm, rumaram para Lourenço Marques (hoje Maputo) em Moçambique, onde foram trocados por americanos e os outros cidadãos que haviam sido expulsos do Japão. Não era tão doido assim! Havia uma ligação forte entre os dois locais, foi o que pensou. E havia também uma ligação com o Brasil! Lourenço Marques era um navegador português e, assim como o nosso, o território foi colônia de Portugal. O japonês negro de Nova Orleans agora também falava português e eles conseguiam se comunicar!
Isso o fez lembrar do amigo Sérvio Martinho, a quem todos chamavam simplesmente de Sérvio Preto. Era outra mente incompreendida! Assim como ele próprio, buscou no Oriente informações necessárias para que encontrasse respostas a muitas das angústias que vivia. Há muito que não o procurava. Encontrava-o sempre por acaso e em todas as vezes um dos dois estava atrasado para alguma coisa, o que impedia uma conversa mais longa. Sérvio gostaria de saber dessa ligação do Japão com Nova Orleans. Tinha o número do telefone dele guardado em algum lugar.
Assim que chegou em casa foi à cata do telefone do amigo. A voz que atendeu o celular era bem conhecida: Andrezza, a esposa de Sérvio. Ex-esposa, ela fez questão de esclarecer. Não estavam mais juntos. Ele retornou à casa dos pais. E estava outra vez em crise. Agradeceu as informações, pediu notícias do filho deles e desligou. Discou o número que ela lhe deu, mas só dava sinal de ocupado. Depois ligaria novamente. Ficou ali, sozinho, matutando e questionando as ironias da vida. Assim como ele, Sérvio sempre buscou, com os seus conhecimentos, ajudar às pessoas que passavam por dificuldades. Eram bons ouvintes e conselheiros razoáveis. Já tinham tirado muitos amigos de crises, ajudado muita gente a tomar novos rumos na vida e encontrar equilíbrio no dia a dia. No entanto, nenhum dos dois parecia conseguir aplicar às próprias vidas as teorias que de tanto valeram para os demais. Foi a primeira vez, em muitos meses, que percebeu que estava mal. Até então, sempre tinha uma justificativa pronta para defender-se das acusações de anormalidade nos atos e pensamentos que tentava impingir a si mesmo. Precisava buscar ajuda!

segunda-feira, 31 de março de 2008

PIANO E PRESTO - Capítulo 1

RONIN NEGRO

Sentou-se em frente ao ‘Casio’ e começou a dedilhar algumas canções que lhe viam à mente. Não sabia dar um acorde sequer, mas gostava de passar o tempo tirando do teclado as notas das canções. Há tempos o fazia no velho bandolim que ganhou de presente, mas a idade avançada do instrumento não lhe permitiu muito tempo de uso. Também gostava de acompanhar velhos discos com uma antiga gaita Hering, completamente fora da escala tônica e, por isso mesmo, de uso exclusivo seu, que já conhecia os seus descaminhos sonoros.
De teoria musical, o máximo que sabia era que as notas Mi e Si não possuíam sustenido (ou um semitom acima) o que, por conseqüência, não permitia que Fá e Dó tivessem bemol (ou um semitom abaixo). Era o máximo que conseguira absorver. Partituras e cifras lhe transformavam em um completo analfabeto. O que lhe salvava nas suas “incursões musicais” era o fato de ter um bom ouvido e uma ótima memória musical. Música, não se cansava de repetir, era a sua religião (“se alguém lhe disser que falou com Deus, pergunte em que tom foi” - dizia - “pois se não foi música” - concluía - “não foi a voz de Deus”). Não deixava de ter a sua razão, pois era a música que o religava com o Divino, que lhe tirava da mente a angústia e o fazia atingir um estado de paz que não era comum no seu dia a dia.
No entanto, naquele momento, ele e o teclado não estavam se entrosando. Até mesmo as músicas que tocava no “piloto automático” estavam teimando em não colaborar. Resolveu, então, brincar com as músicas pré-gravadas do instrumento. Colocou “The house of the rising sun” para tocar em todos os tons e instrumentos possíveis até que a canção tornou-se parte integrante do seu pensamento, grudando na sua mente como um mantra agigantado.
Desligou o teclado e resolveu sair um pouco de casa. Andou sem destino, cantarolando “The house...” até que, quando se deu conta, estava em frente à loja de discos. Entrou e procurou ver se havia algum CD com esta música. Encontrou duas versões: uma com o grupo Santa Esmeralda e outra com The Animals. Comprou as duas. A casa do Sol nascente! Onde seria ela? A Terra do Sol Nascente era o Japão. A casa da música ficava em New Orleans, terra do blues. Que interligação poderia haver entre Japão e New Orleans? Esta especulação um tanto absurda acabou por tomar o lugar da canção na sua mente. Ele tinha essa mania de tentar achar intercessões entre conjuntos aparentemente incompatíveis.
Voltou para casa e passou a ouvir as duas versões. A do Santa Esmeralda tinha um arranjo “gitano” e a outra era mais próxima da batida do rock setentista. Gravou as duas no computador, juntamente com a versão eletrônica do teclado, em um único arquivo, e passou a repeti-lo ininterruptamente.
Compulsão? Obsessão? Pura maluquice? Nos últimos anos estava aumentando o número de manias esquisitas, principalmente em casa. Provavelmente a convivência diária com alguém levaria um relacionamento ao limite do insuportável em pouquíssimo tempo. Estava certo disso, uma vez que, muitas vezes, nem ele mesmo aturava as suas esquisitices! E agora estava com este novo brinquedo mental: A Casa do Sol Nascente!
Enquanto a música continuava a preencher todos os espaços da casa (fácil de ser preenchida, já que minúscula) e da sua cabeça, rabiscava no papel as informações para a futura teoria sobre a interligação que poderia haver entre Japão e New Orleans. Por enquanto, nada estava ordenado, mas estaria. Tinha também esse dom de conseguir lógica onde os outros só enxergariam um caótico amontoado de idéias.
Até mesmo a imagem de um ronin negro tocando um blues ao violão antes do sepuku que resgataria a sua honra, lhe parecia natural nesta mistura de pensamentos em busca da união entre Japão e New Orleans! Adormeceu com essas imagens gravadas em todos os seus inconscientes e sonhou uma profusão de esquisitices que, se lembradas ao acordar, trariam ainda mais confusões àquela mente singular.

ANJOS DO INFERNO - Capítulo 5 (Final)

ELA DELE E ELE DELA

“Ele não voltou e já passam das dez!”, pensou ela ao acordar no sofá, ainda com o coração e o celular nas mãos. Era melhor não tentar imaginar o que podia ter ou estar acontecendo. Ele estava acima de qualquer possibilidade de imaginação. Especialmente em situações em que afloravam os seus “instintos racionais”.
Apesar dele nunca ter esclarecido onde ou com quem havia aprendido a fazer determinadas coisas, sabia que ele era capaz de atos incomuns. Da mesma forma que podia deixar-se abater por uma simples dor de cabeça, era plenamente apto a desprezar a situações de dor que seriam insuportáveis para qualquer mortal. Também já havia assistido ele carregar pesos acima do limite imaginável e, em contrapartida, extenuar-se com a carga de um saco de supermercado.
Era, por convicção, um ser pacífico. Pelo menos até ser colocado em situações onde era obrigado a ser agressivo. Quando isso acontecia, o olhar se modificava, o rosto parecia de pedra e a expressão de monstro substituía o sorriso quase infantil. Não demonstrava prazer em bater, mas batia com crueldade. Nunca derrubava alguém de pronto. Machucava com precisão cirúrgica, até o limite do infeliz adversário chegar próximo à morte. Dizia ter aprendido a lutar para não ter que brigar. No entanto, ao entrar numa briga, não lutava. Batia impiedosamente. Por vezes, batia tanto no oponente que acabava por machucar a si mesmo.
O relato da sua briga com o melhor amigo - a quem ele chamava “Sensei” e que o chamava de “Mestre” - parecia ficção. Mas quem os conhecia sabia que nada daquilo era irreal. O mais incrível não era o que eles conseguiram fazer durante o embate, mas o fato deles terem brigado. Quando lhe contaram sobre a briga, ela visualizou a cena como se tivesse estado presente. Foram apenas uns dez minutos, ou menos, disseram. Mas com golpes que só buscavam pontos vitais. Cadeiras, vidraças e tudo mais que estava no caminho ficou em pedaços. Aqueles que interferiram e conseguiram separá-los também ficaram muito machucados. Foram ambos hospitalizados com vários traumas e fraturas por todo o corpo. Uma luta de titãs, de iguais, de irmãos! Agora, inimigos.
Não devia ter voltado aqui! Resmungou para si mesma, repetidas vezes. Mas voltei! Respondeu-se convicta. Agora estava decidida a explicar o que havia acontecido e ele teria que ouvi-la, quisesse ou não! Isso se ele voltasse.
Ele voltou por volta das onze da noite. Olhou-a bem dentro dos olhos, com aquele olhar quase hipnótico e disse-lhe apenas uma palavra: explique. Era ridículo como ele a conhecia tão bem a ponto de saber o que ela estava pensando, querendo...
Escutou em silêncio toda a explicação sobre o e-mail. Quando ela acabou, ele sorriu e pediu desculpas. Quantas vezes já haviam pedido desculpas um ao outro? Quantas vezes já haviam se desculpado? Seria a derradeira? Abraçaram-se e ficaram silentes por algum tempo, até dizerem em uníssono: Eu te amo! Sorriram e se beijaram como só os amantes que amam sabem beijar. E fizeram amor, transaram e treparam como se não houvesse chance de repetir aquilo em qualquer outro momento. Catarse e catálise de uma vida!
Quando acordaram, conversaram como gente pela primeira vez em anos. Sem ironias, sem meias palavras, sem medo! Aí, naquele instante, nascia uma relação que nem a crise financeira e pessoal que ambos atravessavam seria capaz de destruir. A paixão desenfreada dava lugar a uma relação de amor! Finalmente ambos entendiam o que era o incondicional e puro amor. E amavam-se!
Eles agora sabiam tudo que o outro havia vivido nesses últimos anos, como conseguiram ficar sem praticamente nada e como, juntos, poderiam reerguer a dignidade e a conta bancária de ambos. Ele, arquiteto, especialista em interiores. Ela, design industrial. Eles, juntos, uma pequena empresa de projetos para escolas infantis e quartos de crianças.
Passados seis anos desses quatro dias de purgatório, eles agora contabilizam, além do amor, do reatamento da amizade entre o ‘Sensei’ e o ‘Mestre’, da casa própria, dos carros, do sítio e da empresa consolidada, o casalzinho de gêmeos. O mais belo projeto de suas vidas era a prova viva de que anjos podem surgir do inferno.

ANJOS DO INFERNO - Capítulo 4

AS VAGAS E OS VAGOS

Vagar, vagar, vagar. O corpo vagava pelas ruas, o sangue vagava pela manga da camisa e pelo braço e a mente vagava por todos os lugares e momentos. De repente, estancou! Estancou tudo. Entrou num bar e pediu três doses de vodka pura. Arrancou a manga da camisa e despejou uma dose de vodka na ferida do ombro. Uma segunda vodka na ferida do coração e uma terceira na falta de lucidez. Diziam que passionalidade e irracionalidade eram a mesma coisa, mas ele era a prova viva de que eram coisas distintas. Ele podia ser passionalmente lúcido. O que lhe fazia ferver o sangue também lhe dava um raciocínio preciso e perigoso, uma vez que racionalizava as seqüências dos atos a serem tomados, muito embora não racionalizasse as conseqüências.
Com o trapo da segunda manga arrancada e com uma quarta vodka limpou o sangue coagulado pelo braço. Como ainda havia sangue a escorrer do corte vivo, pediu uma faca ao garçom, esquentou-a com o isqueiro e cauterizou a ferida. As quatro doses seguintes já não tinha função específica, exceto a da embriagues. Foram ineficazes. Apenas potencializaram a sua capacidade de raciocínio inconseqüente. Pagou as oito doses, acendeu um cigarro e saiu para acabar de vez com aquela paradiafonia que, há anos, gerava um ruído insuportável na sua existência.
Seguiu a pé pela orla marítima, olhando as ondas. A canção que brotou na sua mente aumentou a sua irritação:
“O mar passa saborosamente...
- O que?
A língua na areia
Que bem debochada
Cínica que é
Permite deleitada
Estes abusos do mar...”
Sim! Era necessário dar um fim naquela linha cruzada que interferia na sua vida com ela. E não poderia passar daquele dia! Mudou de rumo e tomou o caminho da casa dele. Daquele que invadiu sua privacidade através do celular dela.
Ali estava a encarnação do inverso. Nestes momentos, guiado pelo inconsciente, ele seguia determinado. E só um surto de lucidez poderia afastá-lo de cometer, até mesmo, o inconcebível. Naquele estado, ele era um paradoxo ambulante. A improvável materialização do instinto racional. Sua mente alcoolizada, como se fora uma criança deitada sozinha, à noite, na penumbra de um quarto, transformava todas as sombras em monstros. Ele, porém, não fugia dos monstros. Abraçava-os, formando um séqüito tenebrosamente perigoso. Uma tropa de centauros - mediu feroce bestia, mediu insanu homine - capaz de toda e qualquer coisa. E lá se foram eles em busca de findar o intruso.
Sua aparência não era, definitivamente, capaz de passar desapercebida. Sua camisa com as mangas rasgadas, a ferida no ombro, a expressão imutável no seu rosto e o olhar fixo no vazio acabaram por chamar a atenção de uma viatura da Polícia Militar. Só percebeu os guardas quando eles já estavam à sua frente, barrando a sua trajetória e lhe pedindo os documentos. Numa fração de segundos permitiu-se três opções:
1) Ignorá-los e seguir adiante (desse no que desse);
2) Eliminar aquela barreira e seguir adiante (afinal, eram apenas quatro!);
3) Apresentar os documentos (nunca andava sem eles) e seguir adiante.
Era o surto de lucidez que faltava! No momento que se permitiu optar, acordou o consciente que o fazia uma pessoa quase como as outras. Como se despertasse de um coma de décadas, lesamente tirou a carteira do bolso e apresentou os documentos. Justificou o estado da camisa e a ferida dizendo a verdade. Ouviu os conselhos dos policiais, agradeceu, guardou a carteira e seguiu em frente, até o Morro do Cristo. Subiu o morro, olhou a estátua por alguns minutos, sentou na amurada e chorou. Chorou até exalar pelos olhos a dor e a vodka que lhe impregnavam corpo e alma. Quando o choro se esvaiu, deu um urro de alívio e seguiu até o Farol da Barra, para ver o pôr-do-Sol e sentir-se parte daquilo tudo que chamava de Deus.
As lembranças foram inevitáveis, mas não insuportáveis. Pelo contrário. Recordar os momentos passados naquele mesmo local foram benéficos. Aquele arremedo de gente que estava ali sentado já tinha tido muitos momentos felizes naquele gramado entre o Farol e o mar. Ele e ela abraçados... Ela com um bem-me-quer colhido por ele na encosta e preso nos cabelos... Os amigos reunidos, cantando, tocando e bebendo vinho... Os amigos...
Dentre os amigos estava o seu melhor amigo. Mais que um irmão. Mas aquele amigo olhava para ela de uma forma diferente. Era impossível não notar. E a sombra do ciúme (como cantou Caetano) acabou por embananar tudo. No entanto - e só agora ele atinava para isso - eles nunca conversaram sobre o assunto. Eles que conversavam sobre tudo, que sabiam da vida um do outro mais que seus próprios pais, entraram numa controvérsia muda, num desentendimento incompreensível para todos que os cercavam e que ela sempre dizia ser um engano sem tamanho. Será que ela estava certa?
Mas ele estava lá, no celular dela... Ela disse que ninguém sabia da vinda dela... Ele sabia... Ela mentiu? Esqueceu-se? Novo urro ecoou pelo ar, mas desta vez não era um urro de alivio. Era de esperança.
E saiu cantando, com uma alegria que há muito não lhe dava as mãos pelas ruas de Soterópolis:
“Já não tenho dedos pra contar
Quantos barrancos despenquei
Nem quantas pedras me atiraram
Ou quantas atirei...
Tanta farpa, tanta mentira,
Tanta falta do que dizer,
Nem sempre é “so easy” se viver.
Hoje eu não consigo mais me lembrar
De quantas janelas me atirei
E quanto rastro de incompreensão
Eu já deixei...
Tantos bons quanto maus motivos,
Tantas vezes desilusão.
Quase nunca a vida é um balão.
Mas o teu amor me cura
De uma loucura qualquer.
Encostar no teu peito...
E se isso for algum defeito,
Por mim tudo bem!...”

ANJOS DO INFERNO - Capítulo 3

A COISA E O COISO

Aquela desordem ultrapassava qualquer limite do suportável. Ela tentava imaginar o que havia acontecido para que ele tivesse chegado a tal ponto. Buscava entender a derrocada dele como quem procura uma explicação para a própria derrota pessoal, para tudo que a levara a estar ali, naquele apartamento que, bem ou mau, era a casa dele. Ela, nem isso tinha mais.
Pegou a chave e saiu. Informou-se onde era o supermercado mais próximo e providenciou comprar - além de comida - vassoura, pano de chão, desinfetante, água-sanitária, buchas, detergente... Enfim, todo o necessário para dar “uma geral” no apartamento. Voltou e iniciou a faxina. Sabia que teria tempo de sobra para por um pouco de ordem naquele caos. Das outras vezes em que ele saíra daquele jeito só havia voltado, no mínimo, vinte e quatro horas depois.
Sem querer pegou-se cheia de lembranças e preocupações: “Quantas vezes ele havia convertido a raiva, a mágoa, a decepção, em copos e copos de bebida? Uma vez ele sumiu por três meses. Nenhum amigo o havia visto. Foi encontrá-lo internado como indigente na ala de dependentes químicos do Ana Nery. Era um farrapo humano. Um depósito de diazepam, com olhar fixo e vazio. Sorriu ao vê-la. Sorriu como uma criança que se perde no shopping e reencontra a mãe. Depois caiu em choro convulso e pediu perdão. Pediu perdão por um erro que foi seu e não dele”.
Esfregou o chão com raiva. Raiva de si mesma, raiva dele, raiva dos desencontros e desacertos que viveram. Raiva de estar ali há poucas horas e já estar mergulhada na rotina que dez anos não conseguiram modificar. Em poucas horas o apartamento estava parecendo casa de gente. Limpo, arrumado e perfumado pela compulsão gerada pelos pensamentos dela.
Foi tomar banho e descobriu que só havia água fria. Desta vez não praguejou. Banhou-se e foi preparar algo para comer. Guardaria o restante da comida para quando ele voltasse. Provavelmente chegaria faminto. Ele nunca comia enquanto bebia. Era um teimoso incorrigível! “O meu teimoso”, pensou.
Afastou o pensamento e concentrou-se nas panelas. Eram as únicas coisas em bom estado naquela casa. Provavelmente estavam sendo usadas pela primeira vez. O fedor que sentira provinha de restos de comida de rua no lixo acumulado. Embalagens de pizza e sanduíches predominavam, dando o testemunho de que ele havia parado de cozinhar. E ele cozinhava maravilhosamente bem. Foi difícil admitir isso quando se conheceram, mas ele, realmente, cozinhava muito melhor que ela.
Contrariando à mais otimista das expectativas, ele não se demorou muito nem chegou embriagado. Abriu a porta com a mão esquerda para trás, olhou em redor - “errei de casa?”, perguntou divertido - e surpreendeu-a com um buquê de rosas brancas e uma caixa de “Sonho de Valsa”.
“Esqueci de lhe dar as boas vindas”, disse com um sorriso sincero nos lábios.
“Fiz lasanha” ela disse tímida, como quem houvesse invadido a privacidade dele.
“E transformou o chiqueiro em uma casa. Deve estar exausta”, ele disse com as rosas e os bombons estendidos para ela.
“Nem tanto. Obrigada, Coiso!”.
Ao ouvir aquele apelido íntimo e exclusivo depois de tanto tempo, ele sentiu o peso dos anos se esvair dos seus ombros. Voltou a sorrir e disse o que prometera a si mesmo nunca mais repetir: “Eu te amo, Coisa!”.
A lasanha foi requentada às duas horas da manhã. Após fazerem amor como os magos faziam ouro, numa alquimia única e secreta, estavam famintos. Comeram, tomaram banho frio, sorriram e gozaram por toda a madrugada. Nem sempre nesta ordem; nem sempre ao mesmo tempo; mas sempre juntos. A sexta-feira amanheceu cinzenta, chuvosa e, para os outros mortais, devia estar insuportável. Para eles era o mais resplandecente dos dias.
Após ligar do celular dela para o escritório e avisar que estava doente (“o que você tem?, perguntaram. Uma “Coisa”, ele respondeu e desligou.). Comeram, tomaram banho frio, sorriram e gozaram por todo o dia. Nem sempre nesta ordem; nem sempre ao mesmo tempo; mas sempre juntos. Inconseqüentemente juntos.
No entanto, já diz o ditado popular, dia de muito é véspera de pouco. No caso deles, de quase nada. Por volta das dez horas da manhã de sábado o celular tocou. Como ela estava no banho, pediu para ele atender. A voz masculina do outro lado era inconfundível e inacreditável naquele momento: “Oi! Onde você se enfiou desde quinta?”.
Após quase quebrar o vidro, o aparelho voou, em defenestração irreversível.
- Quem é?; ela perguntou do banheiro.
- Quem foi; ele respondeu.
- Como assim, quem foi?; indagou ela, já saindo envolta na toalha de banho.
- Quem foi, ora! Quem ligou não está mais no aparelho, então não é; foi! O aparelho está lá na rua, espedaçado. Então não é; foi. O que se passou nas últimas horas já não faz sentido. Então não mais é. Foi. E eu, fui!
Saiu estabanado, dando uma senhora cacetada na quina do arquivo, o que lhe rasgou a manga da camisa e abriu um corte no ombro direto. Olhou para o sangue que começou a escorrer, deu uma “bicuda” no arquivo e foi embora.
Ela vestiu-se e desceu em busca do que podia ter restado do celular. Por sorte, ele havia caído sobre o toldo da lanchonete que havia no térreo do prédio. Ligou para o número que aparecia na lista de chamadas atendidas e, ao ouvir a voz que atendeu do outro lado, desligou e concluiu: “puta que pariu, fiz merda!”.
Depois daquilo, só restava esperar quando ele iria retornar. E em que estado. Ela disse que só havia avisado a ele da sua chegada. Mentiu. Involuntariamente. Mas mentiu. Havia esquecido que também havia mandado um e-mail para o ex-melhor amigo dele. Apenas para conseguir o endereço eletrônico dele que ela, numa crise de saudade e raiva, havia jogado fora. Só então ficou sabendo que eles estavam brigados, que a amizade de infância tinha dado lugar a uma desavença que só não acabou em morte porque houve interferência de terceiros, mas que deixou cicatrizes no corpo e no coração de ambos. O pior é que nenhum dos dois lembrava como a briga começou. Estavam bêbados demais para lembrar e magoados demais para esquecer.
Agora ele tinha atendido ao outro no celular e devia estar imaginando mil coisas. “Ele só não dá em cima de você porque tem medo d’eu arrebentar ele todo”, dizia. “Se não fosse por isso, ele atropelava a nossa amizade e lhe cantava”. Ela sabia que ele tinha uma certa razão no que dizia, mas contornava elegantemente a situação para não acabar com a amizade de anos. E justo quando ela não estava mais por perto, eles se confrontaram.
“E se ele tivesse ido procurar o amigo? Ou melhor, o desafeto? Era melhor que estivesse bebendo em algum lugar! Não! Bebendo ele fica mais violento; menos complacente. Já bateu tanto em um cara que consegui quebrar quatro dedos da mão direita e deslocar o pé esquerdo - não do cara! Dele mesmo! Melhor que volte logo! Ou não? Ah, merda! Ele deve estar achando que eu menti de propósito! E ele odeia mentiras! Ele odeia odiar! E quando odeia entra num círculo vicioso incontrolável! Onde ele estará, meu Deus?”
Cansada de divagar em vão, adormeceu no sofá com o celular e o coração nas mãos.

ANJOS DO INFERNO - Capítulo 2

BRONCAS ENTRE BRONCOS

A chegada no apartamento foi tragicômica. O elevador social estava quebrado e, como o de serviço já não funcionava desde que ele se mudara para o prédio, tiveram que subir pelas escadas. Mas tudo bem, eram apenas três lances de escada. Na verdade, tudo bem nada, já que depois do primeiro lance ela lhe acrescentou a carga da mala. A mochila pesava “uma tonelada” e as rodinhas da mala perderam completamente a utilidade, revelando que, ou ela fazia contrabando de chumbo, ou realmente pretendia demorar-se.
- Você já morou melhor!
Ignorou e continuou na tarefa de mula de carga, escada acima.
- Você já morou melhor!
Já morei melhor, já vivi melhor e já estive em companhia melhores, respondeu arfante. E já estou arrependido de tê-la trazido pra cá...
- Lhe pedi alguma coisa? Apenas avisei que chegava hoje...
- A mim e a mais quem?
- Só a você...
- Então pediu sim...
- Interpretação sua...
- E correta...
- Esqueci que você nunca erra...
- Engano seu! Tem um erro subindo as escadas comigo. Chegamos!
Entraram no apartamento e ela teve uma crise de riso. Ele aguardou, quieto, ela parar de rir. Olharam-se nos olhos pela primeira vez desde o reencontro. Descobriram, ao mesmo tempo, que nada havia mudado. Os anos de afastamento não afastaram os sentimentos. A falta de contato não resistiu ao primeiro contato. Não havia mais o cansaço causado pelas malas, não havia mais o eco das palavras, não havia aquela merda de apartamento, não havia o mundo. O que havia era aquela atração irresistível, aquele misto de prazer e tortura que os transportava para outra dimensão onde seriam infinitamente felizes até que um deles, sem motivo algum, agredisse ao outro, numa auto-agressão inconsciente e destrutiva.
Sobreviveram uma vez; juraram nunca mais viver a loucura que os arrebatara e quase demolira uma década antes e estavam ali, beijando-se como se nada mais existisse. Talvez nem eles mesmos. Mas existiam. E este era, sem dúvida, o início da hecatombe que atingiria muita gente que, até então, se achava segura e livre do eterno improvável que era a convivência deles dois, mas que certamente seriam vítimas dos estilhaços daquela relação bombástica. Alea jacta est! Sorte?
O momento de êxtase foi interrompido com uma dilacerante volta à realidade. E a ruptura não poderia ter sido mais desastrosa:
- Isto aqui fede!
Ela falou com o corpo ainda semicolado ao dele, mas com o rosto girando como uma antena de radar, como que tentando identificar a fonte do mau-cheiro.
- Deve ser a sua boca que é muito perto do nariz...
- Filho da puta...
- Mamãe...
A joelhada entre as pernas não chegou a atingi-lo em cheio, mas foi o suficiente para tirar-lhe de perto dela. Cerrou os punhos e revidou, atingindo em cheio a velha geladeira - jamais batera em mulheres e não seria agora que o faria. A vítima do revide mostrou que não estava em condições de assimilar a agressão de forma categórica. A porta despencou, espalhando seu conteúdo pelo chão: dois ovos, uma garrafa de vinho “Surpresa”, uma lata de refrigerante aberta e a colher que estava na boca da lata (para o gás não sair. Pelo menos é o que haviam lhe ensinado). Desta vez, ninguém riu.
Ele foi até a gaveta de um arquivo de metal que lhe fazia as vezes de cômoda e armário, pegou uma cópia da chave do apartamento e jogou perto dela. Deu as costas e saiu sem dizer palavra.
Desceu as escadas abruptamente e, logo depois do segundo andar, deu de frente com o vizinho do apartamento acima do seu. Era o responsável por um vazamento que se infiltrara pela parede da sala e causara um curto circuito na tomada da televisão em plena final da copa de 2002. Aquilo o fizera perder o segundo tempo do jogo. Além disso, o conserto da TV lhe custara, por baixo, umas seis caixas de cerveja. Não pensou uma vez: outro murro certeiro! A dentadura do sujeito voou longe e caiu sobre o cocô do pequinês cego e verminado da gorda do 207. Os óculos caíram mais perto e foram devidamente pisados. Como o sujeito era completamente míope, ficou tateando em busca dos objetos até atolar a mão na merda daquele cachorro insuportável.
Terminou de descer a escadaria às gargalhadas. “Pena que ela não viu isso”, pensou. “Ela que vá à porra”, disse a si mesmo em voz alta. Saiu do edifício sem rumo e, como voltou a chover forte, acabou por entrar no primeiro bar que encontrou.
- Uma cerveja, por favor!
- Tem preferência? Perguntou o garçom.
- Gelada! Respondeu.
“Gelada”! Pensou. “Gelada sobre a mesa! Era assim que ele deveria tê-la reencontrado. Agora era tarde demais! Ela estava lá, na sua casa. Será que ainda estava? Provavelmente sim. Era muito cedo para deixá-lo em paz.”
Bebeu o primeiro copo quase que de um só gole. Olhou o que lhe restava na carteira e concluiu: “dá pra encher a cara”!
- Garçom, um Domus! Duplo! Seco!

ANJOS DO INFERNO - Capítulo 1

CHEGANÇO NA CHEGANÇA
Acordou sem a menor vontade de sair da cama. Se é que um colchonete forrado de kami e uma almofada surrada de suor e saliva, poderiam formar um conjunto que fosse uma cama. Levantou-se quase meia hora depois, com uma preguiça que podia ser notada nos cinzeiros abarrotados de bagas de cigarro, nas camisas usadas e penduradas nos espaldares das cadeiras, na quantidade de pratos e copos sobre a pequena pia da cozinha e no sem-número de sacos de lixo que aguardavam serem colocados na rua.
Olhou com desdém para o cenário caótico que o cercava e foi tomar banho. Apesar do inverno estar de vento em popa, como sempre, tomou banho frio (gelado, diriam alguns). Descobriu que, mais uma vez, deixara a toalha no varal. Como chovia bastante, ela não seria de muita utilidade. Esfregou as mãos pelo corpo na tentativa de reduzir o volume de água acumulado nos pelos e saiu pingando pela casa em busca de outra toalha. Estavam todas na lavanderia (e lá permaneceriam, até que tivesse dinheiro para retirá-las). Enxugou-se com uma toalha de mesa que, finalmente pôde ser útil, uma vez que não tinha mesas em casa.
Vestiu-se usando o mesmo critério de sempre: a roupa a usar seria a que estivesse no topo da pilha (no caso das cuecas, meias e camisas de malha) ou a que estivesse no cabide da frente (no caso das camisas de botão e das calças - sempre jeans). Escolher o que calçar era mais fácil ainda, uma vez que só tinha um par de tênis que, milagrosamente, não fedia proporcionalmente ao tempo de uso.
Sentado no mesmo pequeno sofá onde acabara de se calçar, ficou esperando a chuva passar, ou pelo menos ficar mais fraca, para poder sair. Odiava guarda-chuvas e perdera todos que ganhou. Neste meio tempo, o telefone tocou (esqueceu mais uma vez de desligá-lo para dormir em paz). Atendeu de má vontade e piorou o humor após ouvir a gravação de cobrança da prestadora local. Iam cortar o telefone novamente! O jeito era tentar mais um parcelamento. A chuva cessou e ele saiu, finalmente, para trabalhar.
A rotina era a mesma de todos os dias: um cafezinho na padaria da esquina, comprar cigarro e fósforos (mais baratos de perder que os isqueiros), cumprimentar com a cabeça os desconhecidos que via todo dia pelas ruas e, finalmente, entrar no prédio, dar bom dia ao porteiro e aguardar, impacientemente, o velho elevador. Ao chegar ao sétimo andar, caminhou até o final do corredor e abriu a porta do escritório, dando um bom dia gutural, quase imperceptível, para o representante de uma fábrica de brindes a quem, por necessidade, havia sublocado a parte da frente do escritório de arquitetura, muito embora não tivesse simpatizado desde que o vira.
Já sentado em frente ao computador, abriu a agenda do dia. Eram urgentes apenas dois dos inúmeros tópicos acumulados pelos adiamentos. Manteve os dois na tela e transferiu os outros para o dia seguinte. Tomou as providencias necessárias e consultou seu e-mail. Nada de importante, a não ser um arquivo com um ID que ele há muito não via. Era uma mensagem curta e surpreendente: “Estou chegando na quinta-feira”. Era quinta-feira e faltava coragem para acreditar que ela estaria na cidade. Já havia dez anos desde a última vez que seus olhos se cruzaram e, aproximadamente, uns três sem contato algum. A surpresa foi tão grande que quase não reparou no número de celular ao pé da página.
Aquilo significava “me ligue”, não havia dúvidas. A dúvida era ligar ou não. Vê-la não lhe parecia uma boa idéia. Afinal, cara, cinco anos de análise serviram ou não para alguma coisa? Perguntou-se. Decidiu ligar.
- Alô!
- Oi! Recebi seu e-mail...
- Já notei, senão você não teria este número...
- É verdade. Onde você está?
- Agora, no ônibus, passando em frente ao Iguatemi, tá tudo diferente...
- Então já está a um pulo da rodoviária...
- Você vem me buscar ou pego um táxi?
- Vou demorar uma meia hora para chegar aí. De qualquer forma, pegaremos um táxi. Não tenho mais carro...
- Então não se dê ao trabalho...
- Não é trabalho algum...
- Então tá!
- Tchau!
A meia hora foi de quarenta e cinco minutos, pois tinha ido de ônibus para economizar. Afinal, dois táxis no mesmo dia era uma excentricidade que não cabia no seu orçamento e, com certeza, teria que pegar um para levá-la para algum lugar. Durante o percurso até a rodoviária, uma questão surgiu: será que ela pretendia se hospedar com ele? Não poderia recebê-la no seu “apertamento” por vários motivos (lugar onde dormir, a bagunça geral que o local se encontrava e - principalmente - o verdadeiro vazio de alimentos nos armários e na geladeira). Como deve fazer uma pessoa consciente em situações como esta, respirou fundo, fechou os olhos, elevou a mente e pensou com firmeza: Fodeu!
Lá estava ela, com uma “senhora” mala com rodinhas e uma mochila razoavelmente enorme, o que fazia pressupor que a demora não seria pouca.
- Pensei que não vinha mais...
- Oi!
- Oi! Pensei que não vinha mais...
- O tempo lhe fez bem, pelo menos você já pensa...
- Sua mãe, como vai?...
- Puxe a mala e me dê a mochila. Táxi!
O começo já não foi dos melhores, mas a hecatombe estava apenas germinando. Dizer que certas coisas não mudam nunca seria uma enorme mentira. Ela estava mais ácida que antes. Ele, depois que perdera quase tudo, estava cada vez mais básico. Talvez houvesse um certo equilíbrio químico entre os dois. Ou uma corrosão total.